Project Finance para solar: o que o banco analisa antes de aprovar
Os pontos que definem a bancabilidade de um projeto fotovoltaico — da curva de geração à estrutura de garantias.
Por que solar é diferente de outras tecnologias
Um projeto solar tem CAPEX concentrado no início e OPEX baixo e previsível. Isso favorece a alavancagem, mas transfere o peso da análise para duas variáveis: a curva de geração e o contrato de venda da energia. Diferente de uma térmica, não há combustível para repassar; diferente de uma PCH, a sazonalidade é mais previsível, porém a degradação dos módulos entra no modelo ao longo de 25 anos.
A curva de geração e o P90
O financiador raramente dimensiona a dívida pelo cenário médio (P50). O usual é trabalhar com P90 — o nível de geração que se espera superar em 90% dos anos. Modelar só o P50 costuma ser o primeiro motivo de retrabalho na análise de crédito.
A degradação anual dos módulos, a disponibilidade dos inversores e as perdas de sistema precisam estar explícitas no modelo, não embutidas num fator único.
Geração centralizada ou distribuída muda a análise
Em geração centralizada, a receita vem de PPA de longo prazo ou do mercado regulado, e o risco de crédito é do comprador. Em geração distribuída, a receita é pulverizada entre muitos consumidores, o que reduz a concentração mas traz risco de rotatividade — o modelo precisa de premissa de churn e de prazo médio de permanência.
Os indicadores que o comitê de crédito olha
Na prática, a conversa gira em torno de DSCR (cobertura do serviço da dívida), LLCR e PLCR. O DSCR mínimo é o que define quanto de dívida o projeto suporta. TIR e VPL importam para o acionista; para o banco, o que manda é a robustez do fluxo em cenário estressado.
Stress test mínimo: queda de geração, atraso de entrada em operação, aumento de O&M e variação de preço quando houver exposição ao mercado livre.
Garantias e documentação
A estrutura costuma combinar alienação fiduciária das ações da SPE, cessão dos recebíveis do PPA, penhor dos equipamentos e conta reserva do serviço da dívida. Seguros de performance e de danos materiais entram como condição, não como item acessório.
O erro mais comum
Chegar ao banco com um modelo que prova que o projeto é bom, mas não responde o que o crédito pergunta. São perguntas diferentes: o acionista quer saber se o retorno compensa; o financiador quer saber se o fluxo paga a dívida mesmo quando algo dá errado. O modelo precisa responder as duas.